terça-feira, 3 de maio de 2011

66 – O estômago terá que esperar?

O Hide Park estava húmido e triste. O Verão de São Martinho já passara. Neste ano viera na altura certa. Passear pelo parque enchia-me de melancolia e de fome. Sim, fome. Ok, uma fome misturada com gula. Este tempo, neste local, invoca-me os petiscos gulosos da minha mãe. Chocolate quente à lareira lá de casa. Um belo bolo de laranja com nozes por cima. Uma tarte de maçã com uns poucos fios de ovos. Pudim de baunilha cremoso e pouco consistente. Castanhas cozidas, que depois de descascadas passavam por mel. Hum... um cheirinho de Porto na noite de Thanks Giving, que se aproxima. Lá em casa em vez do peru monumental que se vêem nos filmes a minha mãe costuma fazer uma bela caldeirada de marisco. Nas vésperas os meus pais deslocam-se a Setúbal para comprarem os ingredientes. Por cá na cidade a moda do peru é corrente.

Deambulámos pelo Hide talvez uma hora. O meio-dia aproximava-se e resolvemos dirigir os nossos passos para casa. Quase a chegar ao Point começámos a planear a tarde. A Clarissa tinha curiosidade em passar algum tempo no Young’s. Todos torcíamos o nariz à ideia, mas por ela talvez condescendêssemos.

Enquanto atravessávamos o cruzamento e discutíamos os prós e os contras, notámos uma certa agitação na Main, principalmente para os lados da Câmara. Da New England e de todos os lados víamos pessoas e carros dirigindo-se para lá. Por nós passou o senhor Peninha, vinha com cara de poucos amigos.

- Bom dia, senhor Peninha, - disse eu – passa-se alguma coisa?

- Deve passar-se, Alberto, para nos chamarem ao Conselho Municipal tão perto do almoço. Será que não podiam deixar passar a hora da refeição?

Ele caminhava visivelmente irritado.

- Terá sido por causa do que escreveram na parede da câmara, hoje cedo? – Perguntou a Joana.

O meu coração deu um baque. A lata de tinta para frigoríficos pesava-me no bolso. Com o passeio já me esquecera dela. Senti a cara a escaldar. Terá alguém reparado?

- Não sei, menina. A minha Maria contou-me. Não me acredito que alguém na Câmara esteja a roubar-nos, mas se estiverem... estão tramados, ai estão.

O senhor Peninha é conhecido pela sua frontalidade e veemência nos seus argumentos. Também por apreciar um bom manjar degustado com calma. Hoje se não tiverem cuidado o senhor Peninha fará jus à sua fama.

1 comentário:

  1. Ai Beto, com apetites desses, chegas aos trinta a parecer uma bola ;)

    ResponderEliminar

Queria deixar aqui a sua opinião.